Blindado Osório: começando a perder a guerra no mercado mundial de armamentos
Se o lançamento do trator agrícola pesado representou um salto na gama de equipamentos para a área civil, logo a Engesa mudaria de patamar também na área militar. No final de 1982 foi comissionada pelo Exército para fabricar carros de combate médios sobre lagartas, da classe de 35 t – o mais pesado do país e primeiro da empresa. Dada a reduzida demanda interna, a Engesa decidiu dotar o veículo de características adequadas ao mercado externo, elevando o peso para 41 t (alçando-o à categoria MBT – main battle tank) e aplicando tecnologia embarcada de última geração, visando especialmente à grande concorrência anunciada para breve pela Arábia Saudita, envolvendo compras superiores a US$ 3 bilhões.
Inicialmente denominado T-1, e logo batizado EE-T1 Osório, o novo carro de combate deveria ser equipado com eletrônica sofisticada e privilegiar poder de fogo, proteção e mobilidade, com o propósito de equipará-lo à nova geração de tanques que vinham sendo lançados em outros países. Pontaria a laser, controles para tiro em movimento, visão noturna, proteção QRB (química, radioativa e biológica) e sensor térmico infra-vermelho eram modernos recursos dos quais poderia dispor. Para ele foi projetada uma blindagem mais leve e mais resistente, com chapas combinando materiais metálicos e compostos, especialmente desenvolvidas pela Eletrometal, mesma empresa que produzia os aços especiais para os canhões Engesa.
A gestação do Osório foi complexa e teve final frustrante. Quando do início do detalhamento do projeto, a Engesa buscou adquirir tecnologia junto aos principais fabricantes estrangeiros, sem sucesso, levando à decisão de desenvolvê-lo internamente, com base no que havia de mais atualizado em componentes importados, quando necessário. Foram projetadas duas versões, uma delas mais simples, para atender aos requisitos do Exército Brasileiro. Assim, foram encomendados à britânica Vickers dois modelos de torres, intercambiáveis e com comando elétrico, para canhões de 105 e 120 mm (este, de origem francesa). O sistema de suspensão também seria inglês, da Dunlop, enquanto que os conjuntos de lagartas, o motor MWM V12 de 1.020 cv e a transmissão ZF viriam da Alemanha. Dimensionado para quatro tripulantes, o veículo tinha estrutura monobloco composta por chapas blindadas soldadas, com saias laterais para proteção da suspensão e esteiras; motor e transmissão (automática com conversor de torque) eram montados na traseira. A suspensão era hidropneumática, agindo sobre cada uma das doze rodas de apoio (seis de cada lado). O sistema de frenagem (hidráulico a disco com retarder) era assistido por computador. O primeiro chassi saiu para testes em setembro de 1984, ainda com torre e canhão falsos, e a partir de maio do ano seguinte com a primeira torre Vickers, que acabara de chegar ao país.
Em julho de 1985 o protótipo do Osório foi embarcado para a Arábia Saudita para participar do processo de pré-seleção dos concorrentes à licitação que previa, a princípio, aquisição de mil carros de combate. O carro brasileiro foi escolhido, ao lado de três modelos da França, Grã-Bretanha e EUA. Em julho de 1987 o protótipo definitivo, equipado com canhão de 120 mm e o estado-da-arte em eletrônica embarcada, partiu para o Oriente Médio para a seleção final. Eram os seguintes seus dados de desempenho: rampa máxima, 65%; máximo obstáculo vertical, 1,15 m; vau, 1,20 a 2,00 m (sem e com preparação); velocidade máxima, 70 km/h; autonomia, 550 km. Nenhum tanque da categoria, no mundo (à exceção do alemão Leopard, fora da disputa), reunia em um só projeto a qualidade mecânica e todos os sofisticados sistemas de controle agregados ao Osório. Como era de se esperar, sua performance diante dos demais concorrentes foi excepcional, especialmente nos testes de autonomia e tiro (neste, o Osório foi o único a acertar alvo a 4 km de distância; dos tiros a alvos móveis entre 1,5 e 2,5 km, acertou oito vezes em 12, enquanto que o candidato dos EUA acertou cinco e os demais apenas um). O tanque francês e o britânico foram desclassificados e, embora o equipamento nacional tenha superado também o norte-americano, os dois foram escolhidos como finalistas. Por pressão política do governo norte-americano, no final de 1990 a Arábia acabou por optar pelos equipamentos daquele país, desistindo dos brasileiros. Os estimados vinte milhões de dólares gastos no projeto do Osório não resultaram em nenhuma encomenda para a Engesa; apenas cinco protótipos foram construídos, um deles incompleto. As duas únicas unidades sobreviventes encontram-se desde 2003 de posse do Exército.

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