Total de visualizações de página

Powered By Blogger

domingo, 9 de março de 2008

Idiotas & Ociosos

Preconceito contra a lingüística e os lingüistas

Marcos Bagno (*)

O ensino de língua na escola é a única disciplina em que existe uma disputa entre duas perspectivas distintas, dois modos diferentes de encarar o fenômeno da linguagem: a doutrina gramatical tradicional, surgida no mundo helenístico no século III a. C., e a lingüística moderna, que se firmou como ciência autônoma no final do século 19 e início do 20. Qualquer pessoa bem informada acharia no mínimo estranho se um professor de biologia ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre, ou se um professor de ciências dissesse que a Terra é plana e o Sol gira em torno dela, ou ainda se um professor de química afirmasse que a mistura dos "quatro elementos" (ar, água, terra e fogo) pode resultar em ouro! São idéias mais do que ultrapassadas e que começaram a ser substituídas por novas concepções mais verossímeis a partir do período da história do conhecimento ocidental conhecido como o nascimento da ciência moderna (século 16 em diante). Ninguém se espanta, porém, quando um professor de língua ensina que os substantivos são "palavras que representam os seres em geral", ou que sujeito é "o ser do qual se diz alguma coisa", ou que verbo é "a palavra que exprime ação ou movimento". São afirmações tão imprecisas e incoerentes (para não dizer francamente falsas) quanto a de que as avestruzes enterram a cabeça na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nos dedos! E no entanto elas continuam sendo estampadas nos manuais de gramática, nos livros didáticos, nas apostilas, e cobradas em testes, exames e provas de vestibular!

A doutrina gramatical tradicional, mais velha que a religião cristã, passou incólume pela grande revolução científica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do século 16. Basta examinar o que acontece na escola. É muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem crítica dos saberes do passado, mostrando de que maneira a evolução da sociedade, da ciência e da tecnologia levou o ser humano a abandonar velhas crenças e superstições. Em livros didáticos de biologia, física, química, história, geografia, etc., é freqüente encontrar afirmações do tipo: "Durante muito tempo se acreditou que [...], mas os avanços da pesquisa e do conhecimento revelaram que [...]". Quem não se lembra de algum professor contando a história de Copérnico, Galileu, Newton, Darwin, Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimento humano? Isso só não acontece nas aulas de língua! Os termos e conceitos da Gramática Tradicional – estabelecidos há mais de 2.300 anos! – continuam a ser repassados praticamente intactos de uma geração de alunos para outra, como se desde aquela época remota não tivesse acontecido nada na ciência da linguagem. O ensino tradicional opera assim uma imobilização do tempo, um apagamento das condições sociais e históricas que permitiram o surgimento e a permanência da Gramática Tradicional.

A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do tempo, tem se falado da Família, da Pátria, da Lei, da Fé etc. como entidades sacrossantas, como valores perenes e imutáveis, também a "Língua" foi elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto, ser "preservada" em sua "pureza", "defendida" dos ataques dos "barbarismos", "conservada" como um "patrimônio" que não pode sofrer "ruína" e "corrupção". Nessa concepção nada científica, língua não é toda e qualquer manifestação oral e/ou escrita de qualquer ser humano, de qualquer falante nativo do idioma: "a Língua", com artigo definido e inicial maiúscula, é somente aquele ideal de pureza e virtude, falado e escrito, é claro, pelos "puros" e "virtuosos" que estão no topo da pirâmide social e que, por isso, merecem exercer seu domínio sobre as demais camadas da população. A língua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor abstrato.

Querer cobrar, hoje em dia, a observância dos mesmos padrões lingüísticos do passado é querer preservar, ao mesmo tempo, idéias, mentalidades e estruturas sociais do passado. A Gramática Tradicional, funcionando como uma ideologia lingüística, foi e ainda é, como toda ideologia, o lugar das certezas, uma doutrina sólida e compacta, com uma única resposta correta para todas as dúvidas. Por isso, o que não está abonado na gramática normativa é "erro" ou simplesmente "não é português", e se alguma palavra não se encontra no dicionário é porque simplesmente ela "não existe"! A lingüística moderna, ao encarar a língua como um objeto passível de ser analisado e interpretado segundo métodos e critérios científicos, devolveu a língua ao seu lugar de fato social, abalando as noções antigas que apresentavam a língua como um valor ideológico. Assim, a lingüística, como toda ciência, é o lugar das surpresas, das descobertas, do novo, da substituição de paradigmas, da reformulação crítica das teorias.

Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes. Não é por acaso que, mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingüística como seu corpo teórico e prático de referência, a doutrina gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase irracionais. É o que se vê, hoje em dia, na imprensa e na mídia brasileira, com essa enxurrada de programas de televisão e de rádio, colunas de jornal e revista que tentam preservar as noções mais conservadoras do "certo" e do "errado", desprezando o saber acumulado por mais de um século de ciência lingüística moderna, que tem no Brasil centros de pesquisa de excelência reconhecida internacionalmente. A matéria de capa da revista Veja de 7/11/2001 ("Falar e escrever bem") e a estréia de Pasquale Cipro Neto no programa Fantástico da Rede Globo são exemplos perfeitos do obscurantismo anticientífico que envolve, nos meios de comunicação, tudo o que diz respeito à língua e ao ensino da língua. A participação de Pasquale no Fantástico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira.

Sustentar a doutrina gramatical sem submetê-la a uma crítica serena e bem-fundada é, a meu ver, uma atitude que só pode ter duas explicações: a ignorância científica (a pessoa nunca ouviu falar de lingüística) ou a desonestidade intelectual (tendo entrado em contato com a ciência lingüística, finge que não a conhece) — pior ainda é quando essa atitude se sustenta num indisfarçado e indisfarçável preconceito social. Não podemos aceitar nenhuma dessas explicações para justificar o trabalho daqueles que se proclamam "especialistas" em questões de linguagem. Que um leigo continue a repetir os mitos preconceituosos e as idéias infundadas que circulam na sociedade sobre língua e linguagem é algo que podemos compreender e explicar com base numa análise sociológica e histórica. Mas que assim proceda um autoproclamado especialista que, ainda por cima, se atribui o papel de julgar e condenar o comportamento lingüístico de seus semelhantes... é algo que não podemos aceitar e que devemos, sim, denunciar e combater.

"Português herético"

Pelas mesmas razões que levaram à transformação da Gramática Tradicional num instrumento de dominação e exclusão social é que a atividade dos lingüistas brasileiros vem sofrendo ataques grosseiros por parte de auto-intitulados "filósofos" que representam, na verdade, a reação mais conservadora (e muitas vezes com acentos claramente fascistas) contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade. É a mesma ira que leva os fundamentalistas (pseudo)cristãos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas.

É fácil mostrar de que modo essa oposição à ciência lingüística está viva e ativa no Brasil nos dias de hoje. Para começar, vamos invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espécie de arquétipo folclórico do gramático autoritário, conservador e intolerante: Napoleão Mendes de Almeida. Tudo o que ele escreveu constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de investigação sobre idéias não-científicas: como já vimos na segunda parte deste livro, dos textos de Napoleão gotejam preconceitos sociais, raciais, lingüísticos entre outros; ao mesmo tempo, pululam neles as afirmações mais estapafúrdias possíveis sobre língua, gramática e ensino. Vamos repetir aqui o que ele escreveu no Dicionário de Questões Vernáculas, no verbete "lingüística":

"Para fixar inúteis, pretensiosas e ridículas bizantinices, perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da língua. [...] Que adorno cultural representa um diploma de lingüística a quem escreve, ou deixa meia dúzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramática?[...] Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramática, ensinando a língua da terra porque no programa consta ‘lingüística’. O objeto da lingüística é a língua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma. [...] É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras."

Como essa citação dispensa comentários, quero apenas chamar a atenção para o seguinte fato: Napoleão Mendes de Almeida morreu em 1998 (aos 87 anos). Se tivesse escrito esse verbete até 1930, seria mais fácil entender sua postura anticientífica, analisando-a dentro do contexto das idéias e das concepções de língua e linguagem que vigoravam naquela época, em que a ciência lingüística ainda não tinha se instalado definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa. Mas, em 1998, muita água já tinha passado debaixo da ponte científica, os estudos da linguagem já tinham enfrentado diversas revoluções epistemológicas, amplamente divulgadas nos meios acadêmicos e até nas escolas fundamental e média. Não há nada que possa justificar esse conceito tão mesquinho e tacanho, essa idéia tola de que a lingüística só estuda os sons da fala...

Faço referências a Napoleão Mendes de Almeida porque sua morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na Folha de S. Paulo, jornal onde Pasquale é "consultor de português" (?). Nesse artigo, depois de falar do estilo rebuscado e barroco de Napoleão, Pasquale escreveu o seguinte (27/4/1998):

"Talvez por isso, os lingüistas autoproclamados de vanguarda o têm como conservador e consideram inútil o estudo de sua obra. Meticuloso, Napoleão era essencialmente gramático e como tal deve ser encarado. Muita gente o admira e respeita, sobretudo por seu curso de português e latim por correspondência." E conclui o artigo com estas palavras: "Uma coisa, porém, é incontestável: quem quiser estudar o português ortodoxo – para prestar concurso público, advogar, exercer a magistratura ou carreira diplomática – certamente precisará consultar a obra de Napoleão".

É muito interessante aqui o uso da expressão "português ortodoxo". Como se sabe, a noção de ortodoxia foi inventada – pouco depois da instituição do cristianismo como religião oficial do império romano – para definir os dogmas oficiais da Igreja, as únicas maneiras certas e admissíveis de acreditar em Deus, em Cristo, na Virgem Maria, na Santíssima Trindade etc. Quem se desviasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado às mais diversas punições, como o exílio, a prisão, a tortura e a morte na fogueira. O conceito de ortodoxia se relaciona com uma série de outras noções do mesmo campo semântico: dogma, intolerância, inflexibilidade, pecado, penitência, castigo, excomunhão e outras aparentadas. Ao "erro" do herético corresponde a "infalibilidade" do ortodoxo. Se é possível falar em "português ortodoxo" é porque certamente também deve existir, na mentalidade de seus defensores e em oposição a ele, um "português herético", um "português pecador", que merece castigo e excomunhão... E nós sabemos que é precisamente essa mentalidade de perseguição, acusação e condenação que está por trás, até hoje, da ação dos defensores intransigentes dessa nebulosa "ortodoxia" gramatical.

Nome aos bois

Mas o que será, afinal, o "português ortodoxo" de Pasquale Cipro Neto? Não é muito difícil descobrir, basta ler com atenção as coisas que ele escreve. Analisando, por exemplo, a fala do político Francisco Rossi, candidato ao governo de São Paulo em 1998, Pasquale escreveu, na mesma Folha de S.Paulo (21/8/1998):

"Referindo-se a Gilson Menezes, Rossi disse que o prefeito de Diadema ‘foi um dos que levantou bandeira’. Alguns lingüistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos. Dizem que essa opção ocorre porque o que se quer é colocar em evidência o elemento de que se fala. Balela. Por que não se aceita que se diga ‘Ela é uma das moças bonita da sala’, ou ‘Ele é um dos deputados inscrito para falar’? Porque não se quer dizer que ela é a única moça bonita, nem que o deputado é o único inscrito. Das moças bonitas, ela é uma. Dos deputados inscritos para falar, ele é um. Dos que levantaram bandeira, Gilson é um. Então Gilson foi um dos que levantaram bandeira."

Temos aqui uma das muitas ocasiões em que Pasquale, sistematicamente, só menciona os lingüistas para lançar sobre eles as mais diversas acusações. Nesse texto, temos a associação de lingüistas com devaneios e balela. Mas é sempre assim. Quem consultar, por exemplo, o jornal Folha de S. Paulo a partir de 1994, vai ver que nas colunas assinadas por Pasquale, a palavra lingüista vem sempre acompanhada de alguma nota depreciativa. Também na revista Cult, onde escreve regularmente, Pasquale já chamou os lingüistas de "deslumbrados".

Sobre o fato gramatical que ele analisa, detectando "erro comum" na fala de Francisco Rossi, é muito instrutivo ler o que o filólogo e gramático Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao jornal UERJ em questão (no 72, fevereiro/abril de 2001). Para justificar a suposta necessidade de elaboração de uma gramática normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras, Bechara declarou:

"Vejamos um exemplo: a expressão ’um dos que’. A língua permite que você diga: ‘Carlos é um dos alunos que trabalha’; ou ‘um dos alunos que trabalham’. Há professores que consideram mais lógica a concordância do verbo no plural. Outros acham que a concordância deve ser no singular. Mas a língua admite as duas possibilidades. O que não se pode fazer é optar por uma forma e considerar a outra errada, como muitas vezes fazem as bancas examinadoras."

Evanildo Bechara é, sem a menor dúvida, o mais importante gramático brasileiro vivo. Apesar de sua inegável competência como estudioso da língua, suas posturas políticas e pedagógicas não têm nada de revolucionárias, e o simples fato de pertencer à Academia Brasileira de Letras é exemplo de sua filiação a um ideário conservador e elitista. Ora, Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que Bechara. Para o gramático profissional, "a língua admite as duas possibilidades". Para o colunista da Folha, a admissão dessas possibilidades representa "devaneios" e "balela". Agora fica mais fácil entender o que Pasquale chama de "português ortodoxo": é um conceito de língua certa que é mais certa ainda do que a língua dos gramáticos profissionais, da própria Academia Brasileira de Letras.

Em outra coluna (28/5/1998) ele fala de "lingüistas defensores do vale-tudo", numa absoluta distorção do verdadeiro papel do lingüista como investigador de todos os fenômenos da língua, e não só como caçador de "erros" e juiz do uso.

Vejamos um último exemplo dessa concepção obscurantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingüística e dos lingüistas, e que em nada difere da opinião de Napoleão Mendes de Almeida. A única diferença entre os dois é que Napoleão nunca escondeu suas posições retrógradas, tendo-as assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de sua vida, ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz "moderno" à sua atividade, posando de progressista. O abismo entre seu discurso e sua prática, no entanto, é amplo, largo e fundo. Numa coluna publicada em 20/11/1997, comentando a fala de representantes do governo numa entrevista na televisão, Pasquale escreveu:

"Quem assistiu à entrevista coletiva concedida pela equipe econômica no último dia 10 deve ter tido congestão de ‘de que’. Um dos membros da equipe, cujo nome é melhor não citar, abusou do direito de usar a bendita expressão: ‘O governo considera de que’; ‘Não nos parece de que esse caso’; ‘Penso de que não será’ etc. Santo Deus! De onde o homem, graduadíssimo, professor, tirou tanto de? Os verbos considerar, pensar e parecer pedem a preposição de? É óbvio que não. Alguém pensa algo, alguém considera algo, algo parece a alguém. Onde está o de? Perguntem ao homem. Nada de ‘de que’: ‘Não nos parece que’, ‘Penso que’, ‘O governo considera que’." E agora, ao ataque: "Alguns lingüistas (alguns), idiotas, dirão que a língua falada não merece reparo, que a fala é sempre boa etc. Esses ociosos não conseguem perceber que os homens não estavam na mesa de um boteco, batendo papo. Estavam falando para o país, sobre um assunto técnico, usando linguagem teoricamente culta.Quem assiste a esse tipo de transmissão normalmente acredita nessas pessoas, tem-nas como modelo. Adolescentes que vão fazer vestibular ouvem o cidadão dizendo ‘de que, de que, de que’ e acham que isso é o máximo. A Fuvest faz uma questão a respeito, como já fez há dois ou três anos. E muitos, ingenuamente, erram. E alguns idiotas, ociosos, dizem que a fala é sempre boa, que isso e aquilo".

Esse tipo de afirmação é tão chocante, é reveladora de um tamanho desconhecimento, de uma ignorância tão manifesta, que leva mesmo a pensar que Pasquale não acredita no que escreve. Que deve haver alguma razão secreta para ele publicar coisas que depõem tão abertamente contra sua própria inteligência! Afinal, o fenômeno do dequeísmo já tem merecido, nos últimos quinze anos pelo menos, a atenção de diversos pesquisadores, já foi tema de dissertações e de teses, de artigos publicados em livros e revistas científicas... Será que custava tanto assim ele procurar ler, informar-se sobre o fenômeno? E quem são afinal esses "lingüistas idiotas e ociosos" que dizem que a língua falada não merece reparo, que a fala é sempre boa etc.? Pasquale nunca dá nome aos bois. Por isso, apesar de sempre escrever "alguns lingüistas", ele nunca diz quem, onde e quando. Assim, fica fácil deduzir que esse "alguns" é um mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingüistas.

Democratização do saber

Segundo a já mencionada reportagem de Veja (no 1725), as críticas que Pasquale Cipro Neto recebe de uma "certa corrente relativista", formada por representantes de um "raciocínio torto de um esquerdismo de meia-pataca" deixam "irritado" o garoto-propaganda das lanchonetes MacDonald’s. Ora, o que parece realmente irritar Pasquale é o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes universidades do Brasil. Muito pelo contrário, se o nome de Pasquale é mencionado nas nossas universidades, é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino. Se Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem, é porque sabe que não tem como responder às críticas que recebe por parte dos pesquisadores, dos teóricos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingüística do nosso país. Digo isso com base na experiência de já ter participado de três debates junto com Pasquale e ter conhecido sua estratégia de nunca responder com argumentos consistentes às críticas a ele dirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogância, prepotência, grosserias e ataques pessoais (falando da existência de lingüistas "bichos-grilos") ou fazendo-se de vítima de alguma perseguição (num desses encontros ele declarou sentir-se como um "boi de piranha").

A razão para essa falta de argumentos consistentes é muita simples: Pasquale não tem formação científica para tratar dos assuntos de que trata. Suas opiniões se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativo-prescritiva, cuja inconsistência teórica e cujos problemas epistemológicos graves vêm sendo demonstrados e criticados pela Lingüística moderna desde pelo menos o final do século 19. As concepções de Pasquale de "certo" e de "errado" estão em franca oposição, não só com as teorias científicas mais atuais, mas até mesmo com a postura investigativa dos gramáticos profissionais de sólida formação filológica (coisa que ele definitivamente não tem), para não mencionar as diretrizes pedagógicas das instâncias superiores da Educação nacional.

Por que uma pessoa tão despreparada, que não passa (como reconhece a própria Veja) de um "fenômeno de mídia", se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questões que dizem respeito à língua? Por que os profissionais de outras áreas conseguem se fazer ouvir, mas os lingüistas permanecem não ouvidos? Será que os lingüistas, apesar de se dedicarem ao estudo da língua, não falam? Será que não se dão conta de seu papel social e político, ou, mesmo conscientes desse papel, há outras forças que não nos deixam falar? A quem interessa manter calados os estudiosos da linguagem? Por que o discurso gramatical tradicional, já tão amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em teorias e métodos consistentes e coerentes, ainda tem tanto vigor e obtém tanta defesa? Que ameaça ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratização do saber lingüístico, a divulgação ampla das descobertas deste campo científico, a liberação da voz de tantos milhões de pessoas condenadas ao silêncio por "não saber português" ou por "falar tudo errado"? A quem interessa defender o "português ortodoxo" de uns pouquíssmos "melhores" contra a suposta "heresia gramatical" de muitos milhões de outros?


(*) Lingüista, doutor em Língua Portuguesa pela USP, autor de Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Loyola), Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social (Loyola) e Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa (Parábola), entre outros. URL:

domingo, 2 de março de 2008

Cristóvam Buarque

Em um debate numa Universidade americana, Cristóvam Buarque, ex-governador de Brasília, foi perguntado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia.Quem perguntou disse que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta de Cristóvam Buarque:
"Como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se sob uma ética humanista, a amazônia deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro.
Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Neste momento, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos Estados Unidos. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os Estados Unidos querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos Estados Unidos. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os candidatos a presidência dos Estados Unidos em defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.
Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e de ir a escola. Internacionalizemos as crianças tratando todas elas como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro, ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, ou que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!"

Poemas de Manuel Bandeira

Tragédia Brsileira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim: toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
#################################################################
Estrela Da Manhã
Eu quero a estrela da manhã.
Onde está a estrela de manhã?
Meus amigos, meus inimigos, procurem a estrela da manhã!
Ela desapareceu, estava nua.
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte.
Digam que sou um homem sem orgulho, um homem que aceita tudo. Que me importa? Eu quero a estrela da manhã.
Três dias e três noites fui assassino e suicida. Ladrão, pulha, falsário.
Virgem mal-sexuada, atribuladora dos aflitos, girafa de duas cabeças! Pecai por todos, pecai com todos.
Pecai com os malandros, pecai com os sargentos, pecai com os fuzileiros navais. Pecai de todas as maneiras. Com os gregos e com os troianos, com o padre e com o sacristão, com o leproso e depois comigo.
Te esperarei com mafuás, novenas, cavalhadas. Depois, comerei a terra e direi coisas de uma ternura tão simples, que desfalecerás.
Procurem por toda parte.
Pura ou degradada até a última baixeza, eu quero a estrela da manhã.
#################################################################
Vou-me embora pra pasárgarda
Vou-me embora
pra Pasárgada Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro bravo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito a beira do rio
Mando chamar a mãe-dágua.
Pra me contar histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóides à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
#################################################################

Chama E Fumo

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima... O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas... tem de ser...
Amor?... - chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
##################################################################
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os
detritos.

Quando achava alguma
coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era
um homem.
################################################################
Porquinho-Da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
##################################################################
Bacanal
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada
.A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!
##################################################################
Renúncia

Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
###############################################################
Meninos Carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
- Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe,
dobrando-se com um gemido.)

- Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

- Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarrapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos
desamparados!

sábado, 1 de março de 2008

Textos de Chaplin.

PRECISO DE ALGUÉMQue me olhe nos olhos quando falo.Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.Neste mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...
#################################################################
Não preciso me drogar para ser um gênio; Não preciso ser um gênio para ser humano; Mas preciso do seu sorriso para ser feliz”.
#################################################################
Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha,é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só,porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a provade que as pessoas não se encontram por acaso.”
#################################################################

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar, mas também
decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas
,“quebrei a cara muitas vezes”!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!

Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

Poemas de Neruda.

Saudade
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
################################################################
Nos bosques, perdido
Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos lábios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que de tão longe me pareciaoculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.
Porem ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízesque
abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.
Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela...
################################################################
De noite
De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem
as trevas como um duplo tambor
combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho.
Interceptando o fio das uvas terrestres
com pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate.
Com as asas de um cisne submergido,
para que as perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.
################################################################
Já és minha
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido...
Nenhuma mais, amor, dormira com meus sonhos...
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.
sempre viva. sempre sol... sempre lua...
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo...
teus olhos se fecharam como
duas asas cinzas, enquanto eu sigo a água
que levas e me leva.
A noite... o mundo... o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...
###############################################################
Vês estas mãos?
Mediram a terra, separaram os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra, derrubaram as distâncias
de todos os mares e rios,
e, no entanto, quando te percorrem a ti,
pequena, grão de trigo, andorinha,
não chegam para abarcar-te,
esforçadas alcançam as palomas gêmeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as distâncias de tuas pernas,
enrolam-se na luz de tua cintura.
Para mim és tesouro mais intenso de imensidão
que o mar e seus racimos
e és branca, és azul e extensa como a terra na vindima.
Nesse território, de teus pés à tua fronte,
andando, andando, andando, eu passarei a vida.
###############################################################
Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha
forçaque acordarás as fúrias do pálido e do frio,
de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
de sol a sol sonha através de tua boca cantante.
Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.
Não quero que minha herança de alegria morra.
Não me chames. Estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
A ausência é uma casa tão rápida
que dentro passarás pelas paredes
e pendurarás quadros no ar.
A ausência é uma casa tão transparente
que eu, morto, te verei, vivendo,
e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.
###############################################################
Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo. Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
############################################################
Teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todasas portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
#############################################################
É Proibido
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pinta boa pinta ( Flávio R. Kothe)





Tenho uma pinta preta na ponta do pinto. É a minha cota de negro. Deve servir para entrar na universidade pública progressista na era da igualação geral. O que a cabeça de cima não sabe, a cabeça de baixo resolve. Essa é a solução da minha burrice.
Descobri isso de modo muito simples. Tenho vinte e um anos, já tentei duas vezes o vestibular e só consegui passar o nariz na merda. A Universidade abriu cotas para negros. Eu sei que eles foram os únicos perseguidos no Brasil. Os índios não foram, os judeus não foram, os chineses não foram, os japoneses não foram, os alemães não foram. Só os negros. Nem mesmo os portugueses degredados e degradados. Só eles.
Eu estava deixando essas bobagens passearem pela minha cabeça, enquanto eu estava mirando um jato forte e gostoso na água do vaso, descarregando as cervejas tomadas à noite com os amigos num bar da 109 Sul. É o que os padres do seminário em que estudei chamavam de "abluções matinais". Eu penso melhor quando tenho o pinto na mão. Tem gente que não pensa nessa situação. Eu penso mais, com duas cabeças.
Bastou eu olhar para baixo e, enquanto a sacudia com a vã mas sempre reiterada esperança de que o último pingo não fosse das cuecas, minha piroca me acenou a solução da minha vida. Lá estava ela: assinalada. A pinta preta na ponta do pinto, preservada pelo acaso de não teria sido ofertada a Jeová sem que a Ele fosse perguntado se estava a fim disso, sem que nada fosse perguntado ao inocente sacrificado.
Negro não precisava ser inteligente: bastava ser forte para trabalhar na roça. Então não precisaria ser tão inteligente quanto branco, amarelo ou vermelho para entrar na universidade. Ninguém é todo inteligente, sempre tem pontos cegos, buracos negros. Afinal, a inteligência é uma ameaça à segurança nacional, é preciso reconhecer o mérito da burrice para sobreviver num mundo idiotizado. É preciso acabar com a seleção pelo mérito do bolso dos pais.
A pinta preta na ponta do pinto era o signo colocado por Deus para que eu entrasse na universidade. Estava posta em sossego, num ponto estratégico, reservado, eu diria quase secreto, como sinal do seu valor e da sua relevância. Minha pinta não é parda: ela é preta, bem preta. Não deixa dúvidas quanto à sua raça. Ela é como se Deus tivesse colocado em mim um carimbo secreto dizendo: vai, entra, esse é O Homem.
Eu me apresentei na universidade à Comissão Especial de Cotas para Minorias Portadoras de Necessidades Especiais. Eu pensava, quando eu ainda era ingênuo e não sabia pensar, que na universidade as pessoas muito inteligentes e talentosas fossem portadoras de necessidades especiais, mas me explicaram que não: é preciso ser deficiente para ser especial. Uma pessoa com inteligência e talento não é especial nem na universidade. Pelo contrário, é preciso acabar com ela para que não se meta a besta.
Quiseram os deuses que, na Comissão, eu fosse entrevistado por um senhor muito simpático, que logo me achou lindinho e exibiu um modo muito delicado de falar. Era um tipo muito fino e educado. De certo foi por isso que ele havia sido escolhido para a difícil missão de ver quem era preto. Ele era a porta de acesso entre a instituição e a comunidade: assim ele me disse. Eu acreditei que ele era uma porta de acesso.
Expliquei com todo cuidado o meu caso. Afinal, eu tinha olhos claros e cabelo castanho, a pele não era branca feito papel, mas também não era pintada de preto, ainda que eu tivesse ficado no sol durante duas semanas. O excesso de chuvas havia prejudicado a minha negritude. Tive de confessar, por isso, o signo secreto em mim posto por Jeová, a pinta preta na ponta do pinto.
O simpático senhor me explicou, com toda a delicadeza, que essa política de cotas não era uma bagunça, em que qualquer um poderia alegar o que quisesse, e sim uma coisa muito séria, feita para resgatar todas as injustiças cometidas ao longo da história. Vi que
seus olhos nadavam em lágrimas, quase se afogando de tão comovidas que estavam as duas janelas de sua alma. Ele queria resolver a injustiça pretérita e criar um futuro justo.
Justo era para ele, se bem entendi, tornar todos iguais, ou seja, elevar os inferiores e rebaixar os superiores. Queria fazer média: espichar os curtos e cortar trechos dos compridos. Talvez fosse melhor então fabricar um tipo médio, um medíocre absoluto, e fazer clones, bilhões de clones, bonecos. Para cada clone, alguém diferente teria de morrer. Num mundo mais perfeito, ele poderia escolher entre morrer por conta própria como valente ou ser morto como covarde. Assim se faria justiça. Não ousei, porém, proferir palavra, pois sabia que seria reintroduzir a desigualdade na era da democracia. Afinal, não se deve falar o que não se deve.
Fiquei comovido com o discurso do meu examinador. Meus olhos ficaram se afogando em mares de água salgada. Em busca de salvação, estendi as mãos até ele. O simpático senhor recebeu minhas mãos em suas mãos por sobre a mesa e assim ficamos por um tempo que eu não posso mais dizer quanto foi: estávamos tão enlevados que o tempo se suspendeu e a eternidade se abriu para nós. Pára, instante, tu és tão belo...
O instante eterno foi suspenso por um esbarrão de uma senhora durona, membra da Comissão: parecia ter raiva de homem e do amor entre homens. Meu amado preceptor recobrou a fala e, sem soltar minhas mãos, disse que essa questão de negritude não se resolvia apenas com uma simples declaração, que era preciso provar o alegado. Como se fosse um novo São Tomé, que precisava ver para crer, ele me levou, então, para um quarto reservado nos fundos.
Em lá chegando, tive de fazer prova dos autos. Tive de exibir o documento. O excelso Membro da Comissão examinou o meu membro, com todo cuidado, revirando-o para lá e para cá, a fim de não deixar escapar nenhum detalhe. Era um funcionário exemplar, dedicado e delicado. Viu que a pinta preta não era tão pequena quanto parecera à primeira vista. Quanto mais de perto era examinada, maior se tornava.
Tirou fotografias do documento. Disse que precisava anexar aos autos do processo. Por fim chegou a uma conclusão digna do rei Salomão. A pinta preta não era prova bastante para que eu entrasse na universidade pela cota de preto. Por mais que ela e ele se esforçassem, na percentagem de negritude exigida segundo as normas da Comissão, não dava para eu entrar. Na justa proporção, ela só bastava para o meu pinto entrar.
Entendi as considerações. Aceitei que o meu pinto entrasse na universidade: ele não era meu inimigo, eu não tinha contra ele, embora ele me obrigasse a sempre andar atrás dele. Eu continuaria atrás dele. Afinal, eu não queria tanto estudar com a cabeça de cima, mas entrar em espaços onde pudesse colocar a cabeça oculta a funcionar onde fosse possível. Assim saímos e entramos todos felizes. Graças à pinta preta posta por Deus na ponta do pinto, eu sou agora um feliz acadêmico. Espero que a pinta preta me abra outros caminhos nas brenhas do Senhor e da Senhora, garantindo-me uma profissão que eu por certo irei exercer com toda a dureza que me for exigida.

O Juramento dos Samurais



Eu não tenho pais, faço do céu e da terra meus pais.Eu não tenho casa, faço do mundo minha casa.Eu não tenho poder divino, faço da honestidade meu poder divino.Eu não tenho pretensões, faço da minha disciplina minha pretensão.Eu não tenho poderes mágicos, faço da personalidade meus poderes mágicos.


Eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e morte.Eu não tenho visão, faço da luz do trovão a minha visão.Eu não tenho audição, faço da sensibilidade meus ouvidos.Eu não tenho língua, faço da prontidão minha língua.


Eu não tenho leis, faço da auto-defesa minha lei.Eu não tenho estratégia, faço do direito de matar e do direito de salvar vidas minha estratégia.Eu não tenho projetos, faço do apego às oportunidades meus projetos.Eu não tenho princípios, faço da adaptação a todas as circunstâncias meu princípio.


Eu não tenho táticas, faço da escassez e da abundância minha tática.Eu não tenho talentos, faço da minha imaginação meus talentos.Eu não tenho amigos, faço da minha mente minha única amiga.Eu não tenho inimigos, faço do descuido meu inimigo.Eu não tenho armadura, faço da benevolência minha armadura.Eu não tenho espada, faço da perseverança minha espada.Eu não tenho castelo, faço do caráter meu castelo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Como escolho meus amigos (Wilde)



Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.Deles não quero resposta, quero o meu avesso.Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.Para isso, só sendo louco.Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria.Amigo que não ri conosco não sabe sofrer conosco.Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.Não quero amigos adultos, nem chatosQuero-os metade infância e outra metade velhice.Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou.Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.“Que a felicidade não dependa do tempo,nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro.Que ela possa vir com toda a simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos.Que as pessoas saibam falar,calar e acima de tudo ouvir para que tenhamos certeza de que viver vale a pena.”
Oscar Wilde

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dominus cordis.(pra vc)


"Duvida que as estrelas sejam fogo, Duvida que o Sol gire da Terra em derredor, Duvida que a verdade mentira seja logo, Não duvides jamais do meu amor! Ó querida Ofélia, adoeço a medir versos: Arte não tenho para medir os meus suspiros; mas amo-te sobre todas as coisas e pessoas. Ó melhor das melhores, crê-me! Adeus... Teu para sempre, ó querida das queridas, Teu enquanto dure esta corpórea máquina, Hamlet."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Provérbios do Inferno ( Blake)


No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta. Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos. A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência. Quem deseja, mas não age, gera a pestilência. O verme partido perdoa ao arado. Mergulha no rio quem gosta de água. O tolo não vê a mesma árvore que o sábio. Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela. A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo. A abelha atarefada não tem tempo para tristezas. As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria. Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes. Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez. Nenhum pássaro se eleva muito, se eleva com as próprias asas. Um cadáver não vinga as injúrias. O ato mais sublime é colocar outro diante de ti. Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio. A loucura é o manto da velhacaria. O manto do orgulho é a vergonha. As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião. O orgulho do pavão é a glória de Deus. A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus. O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora. A raposa condena a armadilha, não a si própria. Os júbilos fecundam. As tristezas geram. Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha. O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade. O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que ejam flagelos. O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado. A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos. A cisterna contém; a fonte derrama. Um só pensamento preenche a imensidão. Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará. Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha. A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão. De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme. Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece. Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações. Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução. Da água estagnada espera veneno. Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente. Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano! Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra. O fraco na coragem é forte na esperteza. A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita. Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser. A essência do doce prazer jamais pode ser maculada. Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça! Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas. Criar uma florzinha é o labor de séculos. A maldição aperta. A benção afrouxa. O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova. Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram! A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção. Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível. A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco. A Exuberância é a Beleza. Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso. O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade. Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos. Onde o homem não está a natureza é estéril. A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada. É suficiente! Ou Basta.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Plebiscito ( Arthur Azevedo)


A cena passa-se em 1890.A família está toda reunida na sala de jantar.O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.SilêncioDe repente, o menino levanta a cabeça e pergunta: — Papai, que é plebiscito?O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.O pequeno insiste: — Papai?Pausa:— Papai?Dona Bernardina intervém: — Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos. — Que é? que desejam vocês?— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?— Se soubesse, não perguntava.O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola: — Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei. — Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito? — Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...— A senhora o que quer é enfezar-me!— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada: — Mas se eu sei!— Pois se sabe, diga!— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...A menina toma a palavra: — Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto: — Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...A mulher e os filhos aproximam-se dele.O homem continua num tom profundamente dogmático:— Plebiscito...E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.— Ah! — suspiram todos, aliviados.— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

Odeio Os Indiferentes (Gramsci)


Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
Publicado em "La Città Futura", 11-2-1917

O Analfabeto Político (Bertolt Brecht)



O pior analfabeto é o analfabeto político.Ela não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decosões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político, vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.