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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pinta boa pinta ( Flávio R. Kothe)





Tenho uma pinta preta na ponta do pinto. É a minha cota de negro. Deve servir para entrar na universidade pública progressista na era da igualação geral. O que a cabeça de cima não sabe, a cabeça de baixo resolve. Essa é a solução da minha burrice.
Descobri isso de modo muito simples. Tenho vinte e um anos, já tentei duas vezes o vestibular e só consegui passar o nariz na merda. A Universidade abriu cotas para negros. Eu sei que eles foram os únicos perseguidos no Brasil. Os índios não foram, os judeus não foram, os chineses não foram, os japoneses não foram, os alemães não foram. Só os negros. Nem mesmo os portugueses degredados e degradados. Só eles.
Eu estava deixando essas bobagens passearem pela minha cabeça, enquanto eu estava mirando um jato forte e gostoso na água do vaso, descarregando as cervejas tomadas à noite com os amigos num bar da 109 Sul. É o que os padres do seminário em que estudei chamavam de "abluções matinais". Eu penso melhor quando tenho o pinto na mão. Tem gente que não pensa nessa situação. Eu penso mais, com duas cabeças.
Bastou eu olhar para baixo e, enquanto a sacudia com a vã mas sempre reiterada esperança de que o último pingo não fosse das cuecas, minha piroca me acenou a solução da minha vida. Lá estava ela: assinalada. A pinta preta na ponta do pinto, preservada pelo acaso de não teria sido ofertada a Jeová sem que a Ele fosse perguntado se estava a fim disso, sem que nada fosse perguntado ao inocente sacrificado.
Negro não precisava ser inteligente: bastava ser forte para trabalhar na roça. Então não precisaria ser tão inteligente quanto branco, amarelo ou vermelho para entrar na universidade. Ninguém é todo inteligente, sempre tem pontos cegos, buracos negros. Afinal, a inteligência é uma ameaça à segurança nacional, é preciso reconhecer o mérito da burrice para sobreviver num mundo idiotizado. É preciso acabar com a seleção pelo mérito do bolso dos pais.
A pinta preta na ponta do pinto era o signo colocado por Deus para que eu entrasse na universidade. Estava posta em sossego, num ponto estratégico, reservado, eu diria quase secreto, como sinal do seu valor e da sua relevância. Minha pinta não é parda: ela é preta, bem preta. Não deixa dúvidas quanto à sua raça. Ela é como se Deus tivesse colocado em mim um carimbo secreto dizendo: vai, entra, esse é O Homem.
Eu me apresentei na universidade à Comissão Especial de Cotas para Minorias Portadoras de Necessidades Especiais. Eu pensava, quando eu ainda era ingênuo e não sabia pensar, que na universidade as pessoas muito inteligentes e talentosas fossem portadoras de necessidades especiais, mas me explicaram que não: é preciso ser deficiente para ser especial. Uma pessoa com inteligência e talento não é especial nem na universidade. Pelo contrário, é preciso acabar com ela para que não se meta a besta.
Quiseram os deuses que, na Comissão, eu fosse entrevistado por um senhor muito simpático, que logo me achou lindinho e exibiu um modo muito delicado de falar. Era um tipo muito fino e educado. De certo foi por isso que ele havia sido escolhido para a difícil missão de ver quem era preto. Ele era a porta de acesso entre a instituição e a comunidade: assim ele me disse. Eu acreditei que ele era uma porta de acesso.
Expliquei com todo cuidado o meu caso. Afinal, eu tinha olhos claros e cabelo castanho, a pele não era branca feito papel, mas também não era pintada de preto, ainda que eu tivesse ficado no sol durante duas semanas. O excesso de chuvas havia prejudicado a minha negritude. Tive de confessar, por isso, o signo secreto em mim posto por Jeová, a pinta preta na ponta do pinto.
O simpático senhor me explicou, com toda a delicadeza, que essa política de cotas não era uma bagunça, em que qualquer um poderia alegar o que quisesse, e sim uma coisa muito séria, feita para resgatar todas as injustiças cometidas ao longo da história. Vi que
seus olhos nadavam em lágrimas, quase se afogando de tão comovidas que estavam as duas janelas de sua alma. Ele queria resolver a injustiça pretérita e criar um futuro justo.
Justo era para ele, se bem entendi, tornar todos iguais, ou seja, elevar os inferiores e rebaixar os superiores. Queria fazer média: espichar os curtos e cortar trechos dos compridos. Talvez fosse melhor então fabricar um tipo médio, um medíocre absoluto, e fazer clones, bilhões de clones, bonecos. Para cada clone, alguém diferente teria de morrer. Num mundo mais perfeito, ele poderia escolher entre morrer por conta própria como valente ou ser morto como covarde. Assim se faria justiça. Não ousei, porém, proferir palavra, pois sabia que seria reintroduzir a desigualdade na era da democracia. Afinal, não se deve falar o que não se deve.
Fiquei comovido com o discurso do meu examinador. Meus olhos ficaram se afogando em mares de água salgada. Em busca de salvação, estendi as mãos até ele. O simpático senhor recebeu minhas mãos em suas mãos por sobre a mesa e assim ficamos por um tempo que eu não posso mais dizer quanto foi: estávamos tão enlevados que o tempo se suspendeu e a eternidade se abriu para nós. Pára, instante, tu és tão belo...
O instante eterno foi suspenso por um esbarrão de uma senhora durona, membra da Comissão: parecia ter raiva de homem e do amor entre homens. Meu amado preceptor recobrou a fala e, sem soltar minhas mãos, disse que essa questão de negritude não se resolvia apenas com uma simples declaração, que era preciso provar o alegado. Como se fosse um novo São Tomé, que precisava ver para crer, ele me levou, então, para um quarto reservado nos fundos.
Em lá chegando, tive de fazer prova dos autos. Tive de exibir o documento. O excelso Membro da Comissão examinou o meu membro, com todo cuidado, revirando-o para lá e para cá, a fim de não deixar escapar nenhum detalhe. Era um funcionário exemplar, dedicado e delicado. Viu que a pinta preta não era tão pequena quanto parecera à primeira vista. Quanto mais de perto era examinada, maior se tornava.
Tirou fotografias do documento. Disse que precisava anexar aos autos do processo. Por fim chegou a uma conclusão digna do rei Salomão. A pinta preta não era prova bastante para que eu entrasse na universidade pela cota de preto. Por mais que ela e ele se esforçassem, na percentagem de negritude exigida segundo as normas da Comissão, não dava para eu entrar. Na justa proporção, ela só bastava para o meu pinto entrar.
Entendi as considerações. Aceitei que o meu pinto entrasse na universidade: ele não era meu inimigo, eu não tinha contra ele, embora ele me obrigasse a sempre andar atrás dele. Eu continuaria atrás dele. Afinal, eu não queria tanto estudar com a cabeça de cima, mas entrar em espaços onde pudesse colocar a cabeça oculta a funcionar onde fosse possível. Assim saímos e entramos todos felizes. Graças à pinta preta posta por Deus na ponta do pinto, eu sou agora um feliz acadêmico. Espero que a pinta preta me abra outros caminhos nas brenhas do Senhor e da Senhora, garantindo-me uma profissão que eu por certo irei exercer com toda a dureza que me for exigida.

Um comentário:

Giuliano Gimenez disse...

só este texto do flávio kothe já fez vc ganhar mais um leitor virtual. simplesmente fanástico.

você poderia me passar a referência exata do texto?