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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pinta boa pinta ( Flávio R. Kothe)





Tenho uma pinta preta na ponta do pinto. É a minha cota de negro. Deve servir para entrar na universidade pública progressista na era da igualação geral. O que a cabeça de cima não sabe, a cabeça de baixo resolve. Essa é a solução da minha burrice.
Descobri isso de modo muito simples. Tenho vinte e um anos, já tentei duas vezes o vestibular e só consegui passar o nariz na merda. A Universidade abriu cotas para negros. Eu sei que eles foram os únicos perseguidos no Brasil. Os índios não foram, os judeus não foram, os chineses não foram, os japoneses não foram, os alemães não foram. Só os negros. Nem mesmo os portugueses degredados e degradados. Só eles.
Eu estava deixando essas bobagens passearem pela minha cabeça, enquanto eu estava mirando um jato forte e gostoso na água do vaso, descarregando as cervejas tomadas à noite com os amigos num bar da 109 Sul. É o que os padres do seminário em que estudei chamavam de "abluções matinais". Eu penso melhor quando tenho o pinto na mão. Tem gente que não pensa nessa situação. Eu penso mais, com duas cabeças.
Bastou eu olhar para baixo e, enquanto a sacudia com a vã mas sempre reiterada esperança de que o último pingo não fosse das cuecas, minha piroca me acenou a solução da minha vida. Lá estava ela: assinalada. A pinta preta na ponta do pinto, preservada pelo acaso de não teria sido ofertada a Jeová sem que a Ele fosse perguntado se estava a fim disso, sem que nada fosse perguntado ao inocente sacrificado.
Negro não precisava ser inteligente: bastava ser forte para trabalhar na roça. Então não precisaria ser tão inteligente quanto branco, amarelo ou vermelho para entrar na universidade. Ninguém é todo inteligente, sempre tem pontos cegos, buracos negros. Afinal, a inteligência é uma ameaça à segurança nacional, é preciso reconhecer o mérito da burrice para sobreviver num mundo idiotizado. É preciso acabar com a seleção pelo mérito do bolso dos pais.
A pinta preta na ponta do pinto era o signo colocado por Deus para que eu entrasse na universidade. Estava posta em sossego, num ponto estratégico, reservado, eu diria quase secreto, como sinal do seu valor e da sua relevância. Minha pinta não é parda: ela é preta, bem preta. Não deixa dúvidas quanto à sua raça. Ela é como se Deus tivesse colocado em mim um carimbo secreto dizendo: vai, entra, esse é O Homem.
Eu me apresentei na universidade à Comissão Especial de Cotas para Minorias Portadoras de Necessidades Especiais. Eu pensava, quando eu ainda era ingênuo e não sabia pensar, que na universidade as pessoas muito inteligentes e talentosas fossem portadoras de necessidades especiais, mas me explicaram que não: é preciso ser deficiente para ser especial. Uma pessoa com inteligência e talento não é especial nem na universidade. Pelo contrário, é preciso acabar com ela para que não se meta a besta.
Quiseram os deuses que, na Comissão, eu fosse entrevistado por um senhor muito simpático, que logo me achou lindinho e exibiu um modo muito delicado de falar. Era um tipo muito fino e educado. De certo foi por isso que ele havia sido escolhido para a difícil missão de ver quem era preto. Ele era a porta de acesso entre a instituição e a comunidade: assim ele me disse. Eu acreditei que ele era uma porta de acesso.
Expliquei com todo cuidado o meu caso. Afinal, eu tinha olhos claros e cabelo castanho, a pele não era branca feito papel, mas também não era pintada de preto, ainda que eu tivesse ficado no sol durante duas semanas. O excesso de chuvas havia prejudicado a minha negritude. Tive de confessar, por isso, o signo secreto em mim posto por Jeová, a pinta preta na ponta do pinto.
O simpático senhor me explicou, com toda a delicadeza, que essa política de cotas não era uma bagunça, em que qualquer um poderia alegar o que quisesse, e sim uma coisa muito séria, feita para resgatar todas as injustiças cometidas ao longo da história. Vi que
seus olhos nadavam em lágrimas, quase se afogando de tão comovidas que estavam as duas janelas de sua alma. Ele queria resolver a injustiça pretérita e criar um futuro justo.
Justo era para ele, se bem entendi, tornar todos iguais, ou seja, elevar os inferiores e rebaixar os superiores. Queria fazer média: espichar os curtos e cortar trechos dos compridos. Talvez fosse melhor então fabricar um tipo médio, um medíocre absoluto, e fazer clones, bilhões de clones, bonecos. Para cada clone, alguém diferente teria de morrer. Num mundo mais perfeito, ele poderia escolher entre morrer por conta própria como valente ou ser morto como covarde. Assim se faria justiça. Não ousei, porém, proferir palavra, pois sabia que seria reintroduzir a desigualdade na era da democracia. Afinal, não se deve falar o que não se deve.
Fiquei comovido com o discurso do meu examinador. Meus olhos ficaram se afogando em mares de água salgada. Em busca de salvação, estendi as mãos até ele. O simpático senhor recebeu minhas mãos em suas mãos por sobre a mesa e assim ficamos por um tempo que eu não posso mais dizer quanto foi: estávamos tão enlevados que o tempo se suspendeu e a eternidade se abriu para nós. Pára, instante, tu és tão belo...
O instante eterno foi suspenso por um esbarrão de uma senhora durona, membra da Comissão: parecia ter raiva de homem e do amor entre homens. Meu amado preceptor recobrou a fala e, sem soltar minhas mãos, disse que essa questão de negritude não se resolvia apenas com uma simples declaração, que era preciso provar o alegado. Como se fosse um novo São Tomé, que precisava ver para crer, ele me levou, então, para um quarto reservado nos fundos.
Em lá chegando, tive de fazer prova dos autos. Tive de exibir o documento. O excelso Membro da Comissão examinou o meu membro, com todo cuidado, revirando-o para lá e para cá, a fim de não deixar escapar nenhum detalhe. Era um funcionário exemplar, dedicado e delicado. Viu que a pinta preta não era tão pequena quanto parecera à primeira vista. Quanto mais de perto era examinada, maior se tornava.
Tirou fotografias do documento. Disse que precisava anexar aos autos do processo. Por fim chegou a uma conclusão digna do rei Salomão. A pinta preta não era prova bastante para que eu entrasse na universidade pela cota de preto. Por mais que ela e ele se esforçassem, na percentagem de negritude exigida segundo as normas da Comissão, não dava para eu entrar. Na justa proporção, ela só bastava para o meu pinto entrar.
Entendi as considerações. Aceitei que o meu pinto entrasse na universidade: ele não era meu inimigo, eu não tinha contra ele, embora ele me obrigasse a sempre andar atrás dele. Eu continuaria atrás dele. Afinal, eu não queria tanto estudar com a cabeça de cima, mas entrar em espaços onde pudesse colocar a cabeça oculta a funcionar onde fosse possível. Assim saímos e entramos todos felizes. Graças à pinta preta posta por Deus na ponta do pinto, eu sou agora um feliz acadêmico. Espero que a pinta preta me abra outros caminhos nas brenhas do Senhor e da Senhora, garantindo-me uma profissão que eu por certo irei exercer com toda a dureza que me for exigida.

O Juramento dos Samurais



Eu não tenho pais, faço do céu e da terra meus pais.Eu não tenho casa, faço do mundo minha casa.Eu não tenho poder divino, faço da honestidade meu poder divino.Eu não tenho pretensões, faço da minha disciplina minha pretensão.Eu não tenho poderes mágicos, faço da personalidade meus poderes mágicos.


Eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e morte.Eu não tenho visão, faço da luz do trovão a minha visão.Eu não tenho audição, faço da sensibilidade meus ouvidos.Eu não tenho língua, faço da prontidão minha língua.


Eu não tenho leis, faço da auto-defesa minha lei.Eu não tenho estratégia, faço do direito de matar e do direito de salvar vidas minha estratégia.Eu não tenho projetos, faço do apego às oportunidades meus projetos.Eu não tenho princípios, faço da adaptação a todas as circunstâncias meu princípio.


Eu não tenho táticas, faço da escassez e da abundância minha tática.Eu não tenho talentos, faço da minha imaginação meus talentos.Eu não tenho amigos, faço da minha mente minha única amiga.Eu não tenho inimigos, faço do descuido meu inimigo.Eu não tenho armadura, faço da benevolência minha armadura.Eu não tenho espada, faço da perseverança minha espada.Eu não tenho castelo, faço do caráter meu castelo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Como escolho meus amigos (Wilde)



Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.Deles não quero resposta, quero o meu avesso.Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.Para isso, só sendo louco.Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria.Amigo que não ri conosco não sabe sofrer conosco.Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.Não quero amigos adultos, nem chatosQuero-os metade infância e outra metade velhice.Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou.Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.“Que a felicidade não dependa do tempo,nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro.Que ela possa vir com toda a simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos.Que as pessoas saibam falar,calar e acima de tudo ouvir para que tenhamos certeza de que viver vale a pena.”
Oscar Wilde

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dominus cordis.(pra vc)


"Duvida que as estrelas sejam fogo, Duvida que o Sol gire da Terra em derredor, Duvida que a verdade mentira seja logo, Não duvides jamais do meu amor! Ó querida Ofélia, adoeço a medir versos: Arte não tenho para medir os meus suspiros; mas amo-te sobre todas as coisas e pessoas. Ó melhor das melhores, crê-me! Adeus... Teu para sempre, ó querida das queridas, Teu enquanto dure esta corpórea máquina, Hamlet."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Provérbios do Inferno ( Blake)


No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta. Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos. A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência. Quem deseja, mas não age, gera a pestilência. O verme partido perdoa ao arado. Mergulha no rio quem gosta de água. O tolo não vê a mesma árvore que o sábio. Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela. A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo. A abelha atarefada não tem tempo para tristezas. As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria. Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes. Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez. Nenhum pássaro se eleva muito, se eleva com as próprias asas. Um cadáver não vinga as injúrias. O ato mais sublime é colocar outro diante de ti. Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio. A loucura é o manto da velhacaria. O manto do orgulho é a vergonha. As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião. O orgulho do pavão é a glória de Deus. A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus. O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora. A raposa condena a armadilha, não a si própria. Os júbilos fecundam. As tristezas geram. Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha. O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade. O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que ejam flagelos. O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado. A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos. A cisterna contém; a fonte derrama. Um só pensamento preenche a imensidão. Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará. Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha. A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão. De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme. Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece. Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações. Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução. Da água estagnada espera veneno. Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente. Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano! Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra. O fraco na coragem é forte na esperteza. A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita. Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser. A essência do doce prazer jamais pode ser maculada. Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça! Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas. Criar uma florzinha é o labor de séculos. A maldição aperta. A benção afrouxa. O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova. Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram! A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção. Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível. A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco. A Exuberância é a Beleza. Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso. O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade. Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos. Onde o homem não está a natureza é estéril. A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada. É suficiente! Ou Basta.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Plebiscito ( Arthur Azevedo)


A cena passa-se em 1890.A família está toda reunida na sala de jantar.O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.SilêncioDe repente, o menino levanta a cabeça e pergunta: — Papai, que é plebiscito?O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.O pequeno insiste: — Papai?Pausa:— Papai?Dona Bernardina intervém: — Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos. — Que é? que desejam vocês?— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?— Se soubesse, não perguntava.O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola: — Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei. — Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito? — Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...— A senhora o que quer é enfezar-me!— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada: — Mas se eu sei!— Pois se sabe, diga!— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...A menina toma a palavra: — Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto: — Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...A mulher e os filhos aproximam-se dele.O homem continua num tom profundamente dogmático:— Plebiscito...E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.— Ah! — suspiram todos, aliviados.— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

Odeio Os Indiferentes (Gramsci)


Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
Publicado em "La Città Futura", 11-2-1917

O Analfabeto Político (Bertolt Brecht)



O pior analfabeto é o analfabeto político.Ela não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decosões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político, vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.